Líder do Irã admite milhares de mortos em protestos e critica EUA
O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, declarou neste sábado (17) que milhares de cidadãos iranianos morreram em mais de duas semanas de manifestações. Ele responsabilizou o então presidente dos EUA, Donald Trump, acusando-o de incitar os protestos ao prometer apoio militar aos manifestantes.
Em um discurso divulgado em seu site oficial, Khamenei classificou Trump como um “criminoso” e afirmou que ele é responsável tanto pelas vítimas quanto pelos danos causados durante as manifestações iniciadas no final de dezembro, motivadas inicialmente pela insatisfação com a crise econômica no país.
Khamenei, com 86 anos, não comentou as estratégias duras das forças de segurança iranianas na repressão dos protestos. Testemunhas e entidades de direitos humanos relataram que agentes do governo dispararam contra manifestantes nas ruas e até em telhados.
Segundo a HRANA, uma agência de notícias sediada nos EUA, mais de 3 mil pessoas teriam sido mortas durante os protestos, número não confirmado de forma independente pela CNN.
Um manifestante de Teerã relatou o movimento das multidões desarmadas que ocuparam as ruas enquanto as forças de segurança atiravam de posições elevadas e drones militares monitoravam a área. Ele descreveu uso de lasers e tiros visando principalmente os rostos das pessoas, dizendo que houve um massacre e mortes de jovens considerados valentes.
No pronunciamento oficial, Khamenei afirmou que os manifestantes envolvidos no conflito dividem-se em dois grupos: um deles, apoiado, financiado e treinado pelos EUA e Israel; o outro, composto por jovens influenciados por esses agentes estrangeiros, considerados ingênuos e manipulados. Segundo ele, esses jovens causaram danos a instalações de energia, mesquitas, escolas, bancos, postos médicos e supermercados.
O governo iraniano costuma responsabilizar forças estrangeiras pelos atos violentos, porém sem apresentar evidências. Khamenei afirmou que esses manifestantes causaram milhares de mortes, algumas de forma brutal e desumana, atribuindo os episódios a um plano de sedição.
O manifestante ouvido pela CNN afirmou que a população tentou resistir às ações das forças paramilitares Basij, que atuam para reprimir as manifestações, usando fogo para dissipar gás lacrimogêneo e bloqueando ruas para evitar ataques, mas que os civis dispunham apenas de pedras, sem chances de usá-las.
No início da semana, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, contestou o número de mortos mencionado, sugerindo à Fox News que houve centenas de vítimas e que alegações maiores seriam parte de uma campanha de desinformação.
Em seu discurso, Khamenei chamou os EUA de responsáveis e criticou Trump, que incentivou os manifestantes a persistirem, prometendo ajuda. Khamenei qualificou Trump como criminoso tanto pelas mortes quanto pelas críticas feitas ao povo iraniano.
Trump respondeu, pedindo mudança na liderança do Irã e qualificando Khamenei como um “homem doente” que deveria governar e impedir as mortes.
Em entrevista ao Politico, Trump responsabilizou Khamenei pela destruição do país e pela violência sem precedentes. Ele defendeu que os líderes iranianos deveriam governar o país adequadamente, diferentemente das ações violentas empregadas.
Khamenei reconheceu a difícil situação econômica iraniana, mas exortou a população a defender o sistema islâmico e o país. Solicitou que autoridades aumentem a oferta de produtos essenciais, incluindo ração animal.
Referindo-se aos protestos a favor do governo ocorridos na segunda-feira, afirmou que os distúrbios foram “extintos”.
Durante as manifestações, o governo bloqueou o acesso à internet em 8 de janeiro, mas na manhã de sábado notou-se um leve aumento na conectividade, ainda muito abaixo do normal, segundo a NetBlocks, que monitora segurança cibernética.
A agência semioficial Mehr informou que a internet foi restabelecida para alguns assinantes, justificando o bloqueio como medida contra “distúrbios terroristas” para garantir a segurança nacional.
Algumas chamadas internacionais e mensagens de texto locais voltaram a funcionar, porém a conexão à internet se mantém instável, conforme informações de moradores de Teerã.
Khamenei afirmou que haveria consequências para os envolvidos nos distúrbios, sem especificar punições, e garantiu que o país não será levado à guerra, mas que criminosos domésticos e estrangeiros não ficarão impunes, definindo que a questão será tratada de acordo com métodos apropriados.
Mais de 24 mil manifestantes teriam sido detidos, segundo a HRANA, número não confirmado pela CNN.
Há preocupações sobre o futuro de alguns presos, após declaração do procurador de Teerã indicando possibilidade de pena de morte para alguns manifestantes, segundo a agência Tasnim.
No início da semana, o Departamento de Estado dos EUA afirmou que o Irã planejava executar o manifestante Erfan Soltani, mas sua família reportou o adiamento da pena, e Trump disse ter recebido garantias de que não haveria execuções. O judiciário iraniano negou que Soltani tenha sido condenado à morte.
O chanceler Araghchi afirmou à Fox News que não há planos para execuções e afirmou que Khamenei tomou a melhor decisão ao não enforcar cerca de 800 pessoas recentemente.
Em resposta, o procurador Ali Salehi não confirmou nem descartou intenções de executar manifestantes, dizendo que as respostas serão firmes e rápidas e que muitos casos já foram encaminhados ao tribunal.
Créditos: CNN Brasil