Líderes mundiais reagem com cautela ao conselho de paz proposto por Trump
No domingo, diversos governos responderam com cautela ao convite do presidente dos EUA, Donald Trump, para integrar sua iniciativa “Conselho da Paz”, que tem como objetivo resolver conflitos globais. Diplomatas alertam que o plano pode prejudicar a atuação das Nações Unidas.
Até o momento, apenas a Hungria, liderada por um aliado próximo de Trump, aceitou claramente o convite. Os convites foram enviados a aproximadamente 60 países e chegaram às capitais europeias no sábado (17), conforme relatos de diplomatas.
Outros governos preferiram não se manifestar publicamente, enquanto funcionários anônimos expressaram preocupações sobre o impacto da iniciativa no trabalho da ONU.
Segundo documentos obtidos pela Reuters, o conselho seria presidido vitaliciamente por Trump e inicialmente focado no conflito em Gaza, com planos de ampliar sua atuação a outros conflitos no futuro.
A carta-convite indica que os membros teriam mandatos de três anos, a menos que paguem US$ 1 bilhão cada para financiamento do conselho e obtenham adesão permanente.
A Casa Branca divulgou no Facebook que essa opção de adesão foi criada para parceiros comprometidos com paz, segurança e prosperidade.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, durante visita na Coreia do Sul, afirmou que seu país está “pronto para fazer a sua parte”, embora não tenha especificado se referia a Gaza ou ao esforço de paz geral.
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, declarou que apoia a ideia do Conselho de Paz para Gaza, apesar de os detalhes ainda estarem em definição.
O Conselho de Segurança da ONU autorizou o mandato do Conselho de Paz apenas até 2027, com foco restrito ao conflito em Gaza.
A inclusão de uma carta na carta-convite gerou dúvidas em alguns governos europeus, que temem que isso possa prejudicar a atuação das Nações Unidas. Trump acusa a ONU de não apoiar seus esforços para resolver conflitos no mundo.
Um diplomata qualificou a iniciativa de uma “Nações Unidas de Trump” que ignora os princípios fundamentais da Carta da ONU.
Três diplomatas ocidentais também indicaram que o plano, caso implementado, poderia enfraquecer a ONU.
Além disso, três diplomatas e uma fonte israelense disseram que Trump deseja que o Conselho de Paz amplie sua atuação além de Gaza, supervisionando outros conflitos que afirmou ter resolvido.
Autoridades revelaram que líderes da França, Alemanha, Itália, Hungria, Austrália, Canadá, Comissão Europeia e importantes potências do Oriente Médio foram convidados a participar do conselho.
O documento diz que uma paz duradoura exige discernimento pragmático, soluções sensatas e a coragem de abandonar abordagens e instituições ineficazes.
Foi mencionada a necessidade de um órgão internacional mais ágil e eficaz para consolidação da paz, comentário provavelmente dirigido à ONU.
Trump, que busca o Nobel da Paz, afirmou que o conselho será único e que realizará em breve sua primeira reunião.
Ao ser questionado sobre o plano, um alto funcionário da ONU não comentou diretamente, mas afirmou que a ONU é a única instituição com autoridade moral e legal para unir todas as nações.
Annalena Baerbock, presidente da Assembleia Geral da ONU, declarou que questionar essa autoridade representaria um retrocesso a tempos muito sombrios, ressaltando que cabe a cada Estado decidir sua posição.
A Casa Branca informou na sexta-feira os nomes de alguns membros do conselho, que continuará existindo após o término da supervisão temporária da governança de Gaza, mantida por um frágil cessar-fogo desde outubro.
Estão incluídos o secretário de Estado americano Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e o genro de Trump, Jared Kushner.
Israel e o Hamas manifestaram aprovação ao plano de Trump, que prevê uma administração tecnocrática palestina supervisada por um conselho internacional durante o período de transição da governança de Gaza.
Trump disse à Reuters que o conselho deve começar por Gaza e depois abordar outros conflitos conforme surgirem.
Especialistas e defensores dos direitos humanos alertam que a liderança de Trump no conselho que administra a governança de um território estrangeiro se assemelha a um modelo colonial. O envolvimento de Blair foi criticado devido ao passado na guerra do Iraque e ao histórico do imperialismo britânico na região.
A Casa Branca não detalhou as funções específicas de cada membro e não incluiu nenhum palestino entre os nomes divulgados. Novos membros serão anunciados futuramente.
Também foi estabelecido um “Conselho Executivo de Gaza” separado, com 11 integrantes para apoiar o órgão tecnocrático.
Esse conselho inclui o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan; a coordenadora da paz da ONU para o Oriente Médio, Sigrid Kaag; a ministra da Cooperação Internacional dos Emirados Árabes Unidos, Reem Al-Hashimy; o bilionário israelense-cipriota Yakir Gabay; além de autoridades do Catar e dos Emirados Árabes Unidos.
O gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou que a composição desse conselho não foi coordenada com Israel e contraria suas políticas, possivelmente pelo envolvimento de Fidan. Israel mantém relações tensas com Turquia e Catar. O governo israelense não comentou além do comunicado oficial.
Créditos: Valor