Política
19:19

Lula critica sanções dos EUA e defende soberania em discurso na ONU

Na terça-feira, 23 de setembro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou o debate de líderes da 80ª Assembleia Geral da ONU, realizada em Nova York. Em meio a tensões diplomáticas com os Estados Unidos, decorrentes de novas sanções americanas contra brasileiros, Lula focou seu discurso na defesa da democracia, do multilateralismo e da soberania nacional, abordando temas globais e ambientais.

Ao abrir sua fala, Lula afirmou que a ONU enfrenta uma crise inédita e criticou as “sanções arbitrárias e intervenções unilaterais” aplicadas pelos EUA. Ele declarou que “não há justificativa para as medidas unilaterais e arbitrárias contra nossas instituições e nossa economia” e classificou como “inaceitável” a agressão contra a independência do Poder Judiciário brasileiro.

O presidente enfatizou a resistência do Brasil a ataques contra sua democracia, reconstruída após o regime ditatorial, e, sem citar nomes, mencionou a condenação de Jair Bolsonaro por atentado ao Estado Democrático de Direito, destacando o amplo direito de defesa no processo. Lula ressaltou que esse episódio envia uma mensagem clara “aos candidatos autocratas” sobre a inegociabilidade da soberania brasileira.

Ele afirmou: “Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado a todos os candidatos autocratas e àqueles que os apoiam. Nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis. Seguiremos como uma nação independente e como um povo livre de qualquer tipo de tutela.”

Lula relacionou o fortalecimento democrático à redução das desigualdades sociais, defendendo direitos básicos como alimentação, moradia, saúde e educação. Lembrou que o Brasil retornou ao mapa da segurança alimentar após sair do mapa da fome em 2025, e defendeu a prioridade internacional na luta contra a pobreza, propondo uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, iniciativa lançada no G20 e apoiada por 103 países.

Ele também pediu à comunidade internacional que reduza os gastos militares, alivie dívidas externas de nações pobres e estabeleça padrões mínimos de tributação global para que os mais ricos contribuam proporcionalmente.

Sobre o ambiente digital, Lula defendeu a regulação das plataformas para conter intolerância, desinformação e crimes como tráfico de pessoas e pedofilia. Destacou que regulamentar não significa limitar a liberdade de expressão, mas aplicar no meio digital as mesmas regras do mundo real. Citou a recente legislação brasileira para proteger crianças e adolescentes no espaço digital e projetos enviados ao Congresso para promover concorrência e data centers sustentáveis.

O presidente afirmou: “A internet não pode ser terra sem lei. Cabe ao poder público proteger os mais vulneráveis. Regular não é restringir a liberdade de expressão, é garantir que o que já é ilegal no mundo real seja tratado assim também no ambiente virtual.”

Na política regional, Lula reafirmou o compromisso do Brasil em preservar a América Latina e Caribe como zona de paz, alertando contra a associação entre criminalidade e terrorismo. Defendeu cooperação contra lavagem de dinheiro e tráfico de armas, além do uso restrito da força letal.

Em relação a conflitos internacionais, defendeu manter diálogo aberto com a Venezuela, apoiou o direito do Haiti a um futuro sem violência e criticou a inclusão de Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo. Sobre o conflito na Ucrânia, afirmou que a solução não é militar e que iniciativas de diálogo, como a Iniciativa Africana e o Grupo de Amigos da Paz, devem ser fortalecidas.

Lula também abordou o conflito em Gaza, condenando ataques do Hamas, mas repudiando o “genocídio em curso” na região, o uso da fome como arma de guerra e deslocamentos forçados. Defendeu que o povo palestino sobreviva como Estado independente e criticou o veto que impediu o presidente Mahmoud Abbas de participar da Assembleia.

Destacou que 2024 foi o ano mais quente registrado e anunciou que a COP 30, em Belém, será a “COP da verdade”. O Brasil estabeleceu metas de redução entre 59% e 67% nas emissões de gases do efeito estufa e conquistou uma redução pela metade do desmatamento na Amazônia em dois anos. Propôs o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que remunera países que protegem suas florestas.

Lula sugeriu que a ONU crie um Conselho vinculado à Assembleia Geral para monitorar compromissos climáticos, inserido em uma reforma que também ampliaria o Conselho de Segurança.

No comércio internacional, criticou medidas unilaterais que enfraquecem a Organização Mundial do Comércio (OMC), defendendo a modernização do organismo para preservar princípios como o da nação mais favorecida.

Ao encerrar, homenageou o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica e o papa Francisco, falecidos em 2025, ressaltando suas lutas por valores humanistas. Defendeu a construção do futuro com coragem e escolhas diárias, propondo um mundo multipolar e multilateral.

Segundo Lula, é urgente que a voz do sul global seja ouvida e que a ONU mantenha seu papel de promotora de igualdade, paz e diversidade.

Créditos: Migalhas

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