Lula e Trump se reúnem em Kuala Lumpur para negociar tarifas e sanções
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encontrou-se neste domingo (26/10) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Kuala Lumpur, Malásia.
Segundo publicação de Lula no Twitter, o encontro foi “ótimo” e as negociações seguem “imediatamente” para buscar soluções quanto à tarifa de 50% sobre importações brasileiras e às sanções contra autoridades brasileiras impostas por Trump, relacionadas ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Brasil.
Foi a primeira reunião formal entre os dois líderes, cuja relação se mantinha distante desde o início do governo Trump. A situação piorou em julho, quando Washington anunciou a tarifa elevada contra o Brasil, mas o diálogo começou a melhorar a partir de setembro, após um breve contato durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, o que abriu caminho para o evento bilateral.
O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, afirmou após o encontro que as conversas entre as equipes continuam ainda neste domingo para eventual suspensão da tarifa de 50%.
“Os dois presidentes conversaram de forma descontraída e alegre. Trump expressou admiração pelo perfil político de Lula, que já foi presidente duas vezes, foi perseguido, recuperado e comprovado sua inocência, e retornou para seu terceiro mandato”, declarou Vieira.
Antes da reunião, Trump disse rapidamente a jornalistas que era “uma honra estar com o presidente do Brasil” e expressou otimismo em fazer bons acordos para ambos os países.
Lula afirmou na conversa preliminar que esperava “boas notícias” após o encontro e destacou o interesse brasileiro em manter uma relação extraordinária com os EUA, sem desavenças entre as nações.
“Quando dois presidentes expõem seus pontos de vista e problemas, a tendência é encaminhar um acordo”, completou Lula, que mencionou uma extensa pauta para discutir com Trump. O presidente americano afirmou que eles “chegarão a uma conclusão rapidamente”.
Ao ser questionado se a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro seria tema da reunião, Trump não confirmou nem negou, dizendo ter simpatia por Bolsonaro e lamentado sua situação atual.
Após a reunião, o secretário-executivo do MDIC, Márcio Rosa, declarou que o assunto de Bolsonaro não foi discutido diretamente, mas que Lula tratou das sanções contra autoridades brasileiras.
O encontro ocorreu durante a 47ª Cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), com os dois líderes presentes. Até pouco antes, Brasília e a Casa Branca não haviam confirmado oficialmente a reunião, que foi articulada nas últimas semanas.
No dia 24/10, em Jacarta, Lula afirmou que não haveria “assunto proibido” e que pretendia demonstrar que as taxas aplicadas estavam equivocados, com base em números, ressaltando seu interesse e expectativa de acordo.
Trump indicou estar aberto a revisar e reduzir as tarifas caso as circunstâncias o permitissem.
O principal objetivo da reunião foi tentar romper o impasse comercial e reduzir as tensões criadas pelas sobretaxas americanas impostas sobre produtos brasileiros, principalmente agrícolas e carne bovina.
Em julho, os EUA anunciaram tarifas de até 50% sobre produtos do Brasil, justificadas por razões políticas, além de investigação por “práticas comerciais desleais”. Também houve restrições de visto a autoridades brasileiras e sanções contra o ministro do STF Alexandre de Moraes e sua esposa, motivadas pelo julgamento que condenou Bolsonaro por incitação a ataques a instituições brasileiras.
O governo brasileiro considerou essas sanções ataque à soberania e interferência na independência do Judiciário, relacionando-as às ações do deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, que teria buscado na Casa Branca pressões contra o Brasil.
Desde setembro, Lula e Trump mantêm contato próximo, incluindo uma videoconferência em 6 de outubro, na qual Lula solicitou a retirada das tarifas e sanções, embora Trump tenha deixado o tema para as equipes técnicas.
Em 16 de outubro, o ministro Mauro Vieira e o secretário de Estado americano Marco Rubio fizeram reunião produtiva em Washington para discutir o comércio bilateral e estabelecer agendas.
Antes do encontro, ambos os presidentes mantiveram suas posições firmes. Trump defendeu as tarifas como benefício para pecuaristas americanos, afirmando que sua imposição ajudou os produtores locais, enquanto Lula buscou alternativas ao dólar no comércio e criticou as taxas como arbitrárias e sem sustentação, prometendo argumentar isso durante a reunião.
As tarifas em vigor desde 6 de agosto afetam setores estratégicos da economia brasileira, especialmente exportadores agrícolas e pecuaristas. O pacote de medidas do governo brasileiro inclui créditos subsidiados, adiamento de impostos e compras governamentais para amenizar os impactos.
Para os EUA, as taxas podem reduzir importações brasileiras, incentivando produção interna ou a busca por outros mercados, o que pode resultar em menor oferta e aumento de preços no mercado interno.
Além do comércio e sanções, a regulação das big techs, da mineração de terras raras e o acesso ao mercado de etanol brasileiro também são prioridades para os EUA.
A delegação brasileira que acompanhou Lula incluiu ministros de setores estratégicos, o presidente do Banco Central e o diretor-geral da Polícia Federal.
A viagem de Lula pela Indonésia e Malásia faz parte da estratégia brasileira de diversificação das rotas comerciais, buscando alternativas diante da piora no relacionamento com Washington.
O encontro entre Lula e Trump representou uma tentativa de retomar o diálogo e encontrar soluções para as divergências recentes entre Brasil e Estados Unidos.
Créditos: BBC News Brasil