Manifestações mobilizam 80 mil contra anistia e PEC da Blindagem em capitais
Aproximadamente 80 mil pessoas participaram de atos públicos no Rio de Janeiro e em São Paulo, além de manifestações em todas as outras 25 capitais do Brasil, para pressionar a Câmara dos Deputados a vetar uma anistia para envolvidos em tentativas de golpe e a rejeitar a PEC da Blindagem. Essa ampla mobilização incluiu apoio de artistas e refletiu a insatisfação popular com propostas em discussão no Congresso.
Os protestos reuniram apoiadores do governo Lula, movimentos sociais e cidadãos contrários às decisões recentes do Legislativo. O foco principal das manifestações foram parlamentares do Centrão e aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que articulam a PEC e o projeto de anistia.
No Senado, lideranças afirmaram que a PEC da Blindagem deve ser derrotada na sessão marcada para quarta-feira. A proposta visa dificultar a abertura de processos criminais contra parlamentares e inclui presidentes de partidos entre os beneficiados. A maioria dos senadores manifestou oposição ao texto.
Estimativas do Monitor do Debate Político no Meio Digital, com base em imagens aéreas, indicam que os atos contaram com cerca de 42,3 mil pessoas na Avenida Paulista e 41,8 mil na praia de Copacabana. Esses números são superiores aos de outras manifestações recentes de esquerda e movimentos sociais, e equivalem à mobilização de protestos bolsonaristas recentes.
Durante os atos em São Paulo, manifestantes destacaram uma bandeira gigante do Brasil, contrapondo a imagem do grande bandeirão dos Estados Unidos que foi utilizado em manifestações anteriores de apoiadores de Bolsonaro. No Rio, a programação cultural contou com apresentações de artistas renomados como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan, Paulinho da Viola e Geraldo Azevedo, entre outros, interpretando canções com mensagens críticas à classe política.
Outras capitais também receberam manifestações com participação artística. Em Brasília, o cantor Chico César esteve presente, enquanto em Salvador o ator Wagner Moura e a cantora Daniela Mercury dividiram um trio elétrico. Wagner Moura criticou a atuação do Congresso e exaltou a democracia brasileira.
Em Copacabana, além da rejeição à PEC, Djavan afirmou que “lutaremos sempre” pela democracia e Caetano Veloso pregou o lema “sem anistia”. Ele destacou a necessidade de resposta aos recentes acontecimentos.
Após repercussão negativa da PEC da Blindagem, deputados de partidos de esquerda e centro, como PT, PSB e União Brasil, publicaram vídeos pedindo desculpas por terem votado a favor do projeto. A PEC foi aprovada na Câmara com 344 votos favoráveis e 133 contrários.
No dia seguinte, a Câmara aprovou um pedido de urgência para análise do Projeto de Lei da Anistia, com 311 votos favoráveis. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), também foi alvo de críticas, sobretudo em seu estado, onde manifestantes pediram sua saída.
Aliados de Bolsonaro avaliaram que a articulação do Centrão acabou favorecendo a pauta anticorrupção da esquerda e do governo Lula. A grande mobilização também gerou apreensão na Câmara sobre o destino do projeto de anistia, que chegou a ser chamado de “PL da Dosimetria” por parlamentares do Centrão, deixando claro que o foco poderia ser na redução de penas, não no perdão total de crimes.
Em suas redes sociais, o presidente Lula afirmou que “as manifestações demonstram que a população não quer impunidade, nem anistia” e defendeu que o Congresso se concentre em propostas que tragam benefícios concretos à população.
A análise da PEC da Blindagem começa no Senado nesta quarta-feira, com a leitura do relatório do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). O presidente da CCJ, Otto Alencar (PSD-BA), declarou a intenção de “sepultar” a proposta, reforçando que os atos mostraram que o texto está “fora de sintonia” com o país.
Além de dificultar a abertura de processos, o texto aprovado pela Câmara prevê que a manutenção de prisões em flagrante contra parlamentares seja decidida por votação secreta.
O relator Alessandro Vieira classificou o texto como “um absurdo, um tapa na cara da sociedade”, que pretende criar blindagem para crimes cometidos por parlamentares, e anunciou que recomendará sua rejeição.
Quanto ao projeto de anistia, o deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), relator da proposta, planeja reuniões para tentar construir um texto que reúna consenso entre governistas e oposição. Ele adiantou que não conseguirá contemplar o perdão para Jair Bolsonaro, afirmando que quem pode ajudar nesse sentido são os advogados do ex-presidente.
Créditos: O Globo