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09:08

Minnesota no foco após assassinato de Renee Good em operação de imigração

A investigação do assassinato de Renee Good revela consequências graves na operação de imigração inédita que ocorre nos Estados Unidos.

Mais de 2.000 agentes federais foram deslocados para Minnesota, especialmente na região metropolitana de Twin Cities, onde ocorreu o tiroteio. Essa área, com 3,1 milhões de habitantes, concentra mais da metade da população do estado e a maior parte da população imigrante local.

O caso de Renee Good coloca Minnesota novamente nos holofotes internacionais, pouco mais de cinco anos após o assassinato de George Floyd, que gerou protestos globais. Floyd foi morto a menos de dois quilômetros de onde Renee Good foi baleada. Assim como em 2020, há questionamentos sobre a conduta das autoridades policiais e sobre o contexto histórico de xenofobia dos Estados Unidos, país com raízes coloniais, mão de obra escrava e imigrante exploradas.

Pedro A. G. dos Santos, professor de Ciência Política na College of Saint Benedict and Saint John’s University, e atuante em organizações que defendem a dignidade dos imigrantes em Minnesota, analisa esse cenário com base em sua pesquisa sobre imigrantes brasileiros e em sua experiência com as ações recentes do ICE na sua cidade, próxima a Minneapolis.

Os imigrantes nascidos no exterior representam cerca de 8,6% da população de Minnesota, posicionando o estado como o 20º com maior proporção de imigrantes, abaixo da média nacional de 14,3%. A população estimada de imigrantes sem documentação na região, segundo o Pew Research Center, é de 2,2% (cerca de 130 mil pessoas), valor inferior à média nacional de 4,1%. Estados como Califórnia, Texas, Flórida e Nova York apresentam números muito maiores.

Por que Minnesota, em posição mediana nesta questão, tornou-se foco da repressão do governo Trump? A resposta está na política.

Trump direcionou suas ações para enfraquecer estados que votam nos democratas, e Minnesota tornou-se alvo por esse motivo. O governador Tim Walz, por exemplo, foi candidato a vice-presidente de Kamala Harris nas eleições de 2024 e é crítico constante de Trump.

A má relação de Trump com as autoridades locais de Minneapolis decorre da forma como foram conduzidos os protestos após a morte de George Floyd, fato que influenciou a derrota de Trump em 2020.

Além disso, a maior fraude relacionada à COVID-19 no país, envolvendo cerca de US$ 1 bilhão e pessoas da diáspora somali na região, foi utilizada para justificar a repressão. Trump chamou os imigrantes somalis de “lixo”, alimentando a retórica inflamada que antecedeu a violência.

O assassinato de Renee Good foi registrado por muitos transeuntes e ativistas presentes no local.

Apesar dos 2.000 agentes parecerem muitos, Minnesota é um estado extenso e as operações do ICE ocorrem em áreas específicas, especialmente nas Twin Cities, conhecidas pela histórica segregação que persiste até hoje. Enquanto locais com alta concentração de famílias imigrantes enfrentam conflitos, bairros predominantemente brancos seguem normalmente.

A concentração geográfica e a atuação das redes de resposta rápida explicam o grande número de pessoas no local do assassinato. Essas redes, originárias do “Movimento Santuário” dos anos 1980, reagem às operações federais, oferecendo abrigo e apoio a imigrantes, fruto da retórica e abordagem hostis adotadas por Trump desde seu primeiro mandato.

Durante seu mandato inicial (2017-2020), o número de deportações foi parecido com o do governo Biden, mas a mensagem de Trump foi a mais severa da história recente, motivando a criação de grupos voluntários em todo o país para auxiliar imigrantes nas operações de fiscalização.

Após a vitória eleitoral de Trump em 2024, organizações como Immigrant Defense Network e Monarca passaram a treinar ativistas para identificar agentes, denunciar e proteger comunidades.

No dia da morte de Renee Good, o veículo dos agentes ficou preso na neve. Redes de mensagens provavelmente identificaram o veículo, alertando moradores, o que fez a concentração de pessoas no local ser rápida.

Um dia após o assassinato, o autor relata sua experiência ao acompanhar agentes em sua cidade próxima a Minneapolis. Os agentes, usando carros sem identificação, percorreram bairros, bateram em portas para verificar se estavam destrancadas, mas não tinham mandados de busca, somente de prisão, o que limitava suas ações.

Quando questionados sobre mandados, alguns agentes se mostraram agitados e aproximaram-se para fotografar o veículo do observador, mas saíram após explicar sua função.

É comum agentes se retirarem ao perceberem que suas ações estão sendo filmadas ou monitoradas, motivo pelo qual as redes de resposta rápida são essenciais.

Essas equipes documentam o uso de táticas enganosas que violam a Quarta Emenda, como bateção em portas para induzir pessoas a saírem ou permitirem entrada sem mandado.

Além de educar imigrantes sobre seus direitos, os grupos funcionam como mecanismos de controle popular contra abusos federais.

Portanto, essas equipes representam também formas organizadas de resistência cidadã, que protegem direitos constitucionais mínimos e protestam contra o abuso do poder federal.

Créditos: Terra

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