Multidão no Irã protesta contra regime dos aiatolás em meio a repressão
Centenas de manifestantes se reuniram na noite de sexta-feira, 9, em Mashhad, no nordeste do Irã, pedindo a queda do regime dos aiatolás. As cidades iranianas se preparam para mais noites de protestos contra o governo, apesar da repressão crescente das autoridades, que prometeram acabar com as manifestações.
As passeatas começaram no fim de dezembro em resposta a uma crise econômica e se espalharam, ganhando força pela insatisfação contra o governo autoritário do país.
Na sexta-feira, Teerã e outras grandes cidades foram marcadas por uma segunda noite consecutiva de tumultos, mesmo com o bloqueio da internet. Manifestantes entoaram slogans contrários à República Islâmica, acenderam fogueiras e incendiaram prédios em alguns casos, conforme testemunhas e vídeos verificados pelo The New York Times e pela BBC Persian Television.
As forças armadas do Irã declararam que protegeriam a infraestrutura estratégica e propriedade pública. Desde o início dos protestos, dezenas de manifestantes foram mortos, segundo grupos de direitos humanos.
O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, afirmou que o governo não recuaria e qualificou os manifestantes como vândalos tentando agradar o presidente dos EUA, Donald Trump. Trump prometeu ajuda aos manifestantes caso o governo iraniano use força letal, embora sem clareza sobre o cumprimento da ameaça.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou apoio ao “corajoso povo do Irã” em redes sociais.
A economia do Irã enfrenta pressão contínua, em grande parte pelas sanções de EUA e Europa relacionadas ao programa nuclear do país. Uma guerra de 12 dias com Israel em junho de 2026 agravou ainda mais a situação financeira.
Com a desvalorização da moeda em relação ao dólar e a alta inflação, comerciantes e estudantes organizaram protestos.
Os comícios se expandiram para críticas mais amplas ao governo teocrático iraniano. Nas redes sociais e na televisão, manifestantes gritaram slogans como “Morte ao ditador” e “Iranianos, levantem suas vozes, gritem por seus direitos”.
De acordo com o Instituto para o Estudo da Guerra, com sede nos EUA, os protestos atingiram dezenas de cidades. Vídeos na BBC Persian mostraram milhares marchando em Teerã, representando diversos bairros socioeconômicos.
A Anistia Internacional relatou pelo menos 28 mortes entre manifestantes e transeuntes, incluindo crianças, entre 31 de dezembro e 3 de janeiro. Outros grupos estimam mais de 40 mortos desde o início dos protestos.
Um engenheiro em Teerã disse ter ouvido tiros e resolveu voltar para casa quando policiais e milícias começaram a dispersar a multidão com tiros para o alto.
Um vídeo do The New York Times mostrou pelo menos sete pessoas aparentemente mortas no Hospital Al-Ghadir, em Teerã.
A Guarda Revolucionária afirmou que protegerá os ganhos da Revolução Islâmica e manterá a segurança da sociedade, definindo essas ações como suas “linhas vermelhas”.
Inicialmente, o governo demonstrou disposição para ouvir os manifestantes, anunciando um pagamento mensal de cerca de US$ 7 para a maioria da população. O presidente Masoud Pezeshkian reconheceu queixas “legítimas” e nomeou novo chefe do banco central, dizendo que atos de violência devem ser evitados.
Contudo, recentemente, a postura das autoridades endureceu, com prisões em massa e uso da força. O procurador-geral Mohammad Movahedi Azad declarou que processos contra manifestantes serão implacáveis, considerando-os “inimigos de Deus”, uma acusação passível de pena de morte.
O país enfrenta isolamento internacional e receio interno de ataques militares dos EUA ou Israel. Autoridades israelenses manifestaram apoio aos manifestantes, e Trump afirmou que os EUA estão “prontos para agir” se o governo iraniano usar força letal, embora tenha sido evasivo quanto a mudanças de regime.
O governo iraniano prometeu retaliar qualquer interferência americana, inclusive com ataques a bases e forças dos EUA na região.
A situação atual também renovou a atenção a Reza Pahlavi, filho do xá deposto e exilado nos Estados Unidos, que convocou protestos noturnos e greves em setores estratégicos. Imagens recentes mostraram manifestantes em Teerã clamando pela volta de Pahlavi, embora especialistas questionem o alcance de seu apoio dentro do país.
Créditos: Estadão