Netanyahu desafia aliados na ONU e se dirige a reféns em Gaza
Por Sandra Cohen
26/09/2025 13h09 Atualizado há 2 horas
Diante de uma pequena audiência, após a debandada ostensiva de delegações do plenário, Benjamin Netanyahu encarou o que foi descrito como o mais difícil de seus 14 discursos já proferidos na ONU como premiê israelense. O ambiente de hostilidade e o isolamento internacional em relação às ações de seu governo em Gaza não o intimidaram.
Ao invés de recuar, o primeiro-ministro traçou uma posição desafiadora perante aliados tradicionais que se afastaram, ao rejeitar com veemência a solução de reconhecimento conjunto da Palestina como Estado durante esta 80ª Assembleia-Geral da ONU.
Exímio orador em inglês fluente, Netanyahu adotou um tom dramático e apocalíptico que remete a discursos anteriores na ONU. Usou recursos visuais, como gráficos e até um teste de múltipla escolha dirigido à audiência. Ostentou um broche na lapela com um QR Code que, segundo ele, permitiria aos ouvintes obter mais informações sobre o massacre de 7 de Outubro.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante discurso na Assembleia Geral da ONU, em 26 de setembro de 2025. — Foto: Jeenah Moon/Reuters
Apesar da resistência do Exército israelense, Netanyahu ordenou que sua mensagem fosse transmitida por alto-falantes em toda a Faixa de Gaza, com o objetivo de alcançar os 28 reféns que ainda estão vivos e também os combatentes do Hamas. Ele condicionou a apresentação de sua hipótese para o fim da guerra à devolução de todos os reféns.
O discurso teve claro viés eleitoral voltado ao público interno, destacando as ações de seu governo para erradicar grupos terroristas e conter a influência do Irã no último ano. Ao mesmo tempo, dedicou grande parte do tempo a disparar repetidas mensagens contra aliados ocidentais, aos quais acusou de fraqueza por cederem — nas suas palavras — “a uma mídia tendenciosa, de grupos islâmicos radicais e de multidões antissemitas.”
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, mostra um cartaz durante discurso na Assembleia Geral da ONU, em 26 de setembro de 2025. — Foto: Jeenah Moon/ Reuters
No palco internacional, Netanyahu parece contar basicamente com o apoio de Donald Trump, a quem elogiou diversas vezes ao longo dos 47 minutos em que falou na ONU. Nesta segunda-feira, o premiê se encontrará pela quarta vez com o presidente americano desde o retorno de Trump à Casa Branca.
Trump, porém, tem demonstrado impaciência com Netanyahu e deixou claro que não permitirá a anexação de partes da Cisjordânia por parte de Israel, como andam defendendo setores radicais da base do premiê. Pela primeira vez, um presidente americano pareceu dar uma ordem direta ao líder israelense. “Isso não acontecerá! Já chega”, afirmou Trump na véspera do discurso de Netanyahu.
Há razões para a irritação demonstrada por Trump: a anexação da Cisjordânia comprometeria os Acordos de Abraão, patrocinados pelo governo americano, e violaria a linha vermelha definida por líderes árabes, com os quais o presidente americano se comprometeu durante uma reunião multilateral paralela à Assembleia-Geral.
Trump tem pressa para implementar um plano de paz de 21 pontos para o período pós-guerra no enclave palestino. Mas, até agora, falta dobrar Netanyahu.
Créditos: G1