Internacional
15:08

Oposição venezuelana enfrenta dúvidas sobre futuro após captura de Maduro e papel de Trump

O impacto de se aliar a um aliado imprevisível como Donald Trump tornou-se evidente para os opositores na Venezuela. Entre integrantes do círculo político próximo a María Corina Machado, vencedora do Nobel da Paz, e líderes da sociedade civil, há um sentimento amargo desde a captura do ditador Nicolás Maduro.

No grupo central da oposição, que negociou com a Casa Branca e demonstrou admiração por Trump, comemora-se a “extração cirúrgica” do sucessor político de Hugo Chávez. Porém, há desconforto com os comentários de Trump e incertezas sobre os próximos passos.

Especialmente gerou mal-estar Trump ter afirmado em Mar-a-Lago que María Corina é “uma mulher muito legal”, mas que não possui o respeito necessário para liderar a Venezuela. A líder opositora, impedida de concorrer à Presidência, conseguiu eleger seu candidato Edmundo González no pleito considerado fraudado e chegou a dedicar seu Nobel a Trump.

Um ex-diplomata opositor avalia que a falta de apoio de Trump beneficia María Corina, já que assim ela é vista pelo povo venezuelano não como candidata dos EUA, mas como a representante da vontade popular.

Atualmente, María Corina está em local desconhecido na Europa após sua fuga da Venezuela no mês passado. A linha-dura Delcy Rodríguez, que havia sido isolada por Chávez, mas hoje apoiada por Maduro e considerada traidora por parte do chavismo, foi designada por Washington para iniciar uma transição tutelada, assumindo a presidência interina em 5 de janeiro.

Além das dúvidas envolvendo Delcy, opositores questionam quando ocorrerão novas eleições e recorrem à Constituição nacional para pressionar.

A Constituição venezuelana prevê dois cenários para ausência do presidente. Em caso de “ausência absoluta” — como impeachment, incapacidade, morte ou destituição —, devem ser realizadas novas eleições em 30 dias, prazo que Trump rejeitou recentemente.

Outra possibilidade é a “ausência temporária”, em que o vice-presidente (neste caso Delcy) assume por até seis meses, quando eleições devem ocorrer. Essa questão jurídica é complexa.

O Supremo Tribunal venezuelano, controlado pelo chavismo, validou a eleição contestada de Maduro e a posse de Delcy como presidente interina, considerando a ausência de Maduro temporária.

Assim, opositores começam a trabalhar na argumentação de que novas eleições devem ocorrer em até seis meses para restaurar a democracia, hipótese em defesa da qual Maduro foi capturado.

Para isso, eles buscam apoio internacional, como da União Europeia e países latino-americanos, para persuadir Washington a transferir o poder à oposição, e não mantê-lo sob o chavismo representado por Delcy.

Muitas lideranças opositoras falam anonimamente, temendo prejudicar o diálogo com os EUA ou sofrer repressão interna.

O núcleo duro do chavismo e seus ministros permanecem no poder, inclusive o chefe da Defesa Vladimir Padrino López, responsável pela defesa nacional que falhou diante da ofensiva americana. Há preocupação com a reação do regime, que segue forte meses após a invasão americana.

Enquanto isso, cresce a pressão para libertar mais de 860 presos políticos no país. Um aliado de María Corina afirma que decretar anistia geral para esses detidos seria um sinal claro de mudança.

Entre os presos estão parentes de opositores, ativistas como Rocío San Miguel e ex-candidatos presidenciais, incluindo 176 militares detidos por discordar das políticas repressivas.

Alfredo Romero, diretor da ONG Foro Penal, que oferece assistência legal aos presos políticos, afirmou que a frustração atual é igual à que existia antes da captura de Maduro.

Créditos: Folha de S.Paulo

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