Internacional
12:09

Presença russa na Groenlândia e Ártico preocupa em contexto global

A discussão sobre o Ártico tem ganhado intensidade, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, insistindo que a Groenlândia passe a fazer parte dos EUA.

Embora a proposta de Trump, que envolve o território de um aliado próximo, tenha causado surpresa mundial, a disputa pela região do Ártico já acontece há décadas.

A Rússia mantém uma presença predominante na área, controlando cerca de metade do território terrestre e da zona econômica exclusiva marítima ao norte do Círculo Polar Ártico. Além disso, dois terços da população da região vivem na Rússia.

Apesar do Ártico representar aproximadamente 0,4% da economia global, segundo o Conselho do Ártico, a Rússia é responsável por dois terços do PIB local.

O país vem ampliando sua presença militar no Ártico por muitos anos, investindo em bases e instalações militares novas e existentes.

De acordo com a Fundação Simons, uma entidade canadense que monitora a segurança do Ártico e o desarmamento nuclear, há 66 bases militares e centenas de postos avançados na região ártica: 30 na Rússia e 36 em territórios de países da Otan, incluindo 15 na Noruega (com uma base britânica), oito nos EUA, nove no Canadá, três na Groenlândia e uma na Islândia.

Embora nem todas as bases possuam capacidades equivalentes — especialistas indicam que a Rússia não alcança atualmente o nível militar da Otan — a escala e o ritmo de expansão da presença militar russa na região preocupam.

O Instituto Real de Serviços Unidos (RUSI), do Reino Unido, afirmou que a Rússia investiu significativamente na modernização de sua frota de submarinos nucleares, base de seu poder militar no Ártico.

Paralelamente ao conflito na Ucrânia, a Rússia melhorou suas tecnologias de radar, drones e mísseis na região.

Após o fim da Guerra Fria, o Ártico parecia um espaço para cooperação entre a Rússia e os países ocidentais. O Conselho do Ártico, criado em 1996, buscava estreitar laços entre Moscou e outras sete nações árticas, tratando temas como biodiversidade, clima e direitos dos povos indígenas.

Por um tempo, houve tentativas de cooperação em segurança, com a participação russa em reuniões do Fórum dos Chefes de Defesa do Ártico, interrompida após sua anexação da Crimeia em 2014.

Desde então, a cooperação diminuiu drasticamente, atingindo um novo ponto baixo após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.

A entrada da Finlândia e da Suécia na Otan, em 2023 e 2024, dividiu a região ártica aproximadamente em duas áreas: uma controlada pela Rússia e outra pela Otan.

Trump declarou repetidamente que os EUA precisam da Groenlândia por motivos de segurança nacional, citando o interesse russo e chinês no Ártico.

Ele argumenta que a Dinamarca, que detém soberania sobre a Groenlândia, não tem força suficiente para defender a ilha dessas ameaças.

Embora a China não tenha territórios árticos, declarou-se “estado quase ártico” em 2018 e promoveu a “rota da seda polar” para navegação.

Em 2024, China e Rússia iniciaram operações de patrulha conjunta no Ártico, integrando uma colaboração mais ampla.

O interesse na área vai além da segurança. O Ártico está mudando rapidamente devido ao aquecimento climático, que ocorre cerca de quatro vezes mais rápido que a média mundial.

Cientistas alertam dos impactos negativos para a natureza e comunidades locais, mas há também a expectativa de benefício econômico pela abertura da região para mineração e navegação.

Duas rotas marítimas praticamente intransitáveis até duas décadas atrás estão agora acessíveis pelo derretimento do gelo: a Rota do Mar do Norte, que segue a costa russa, e a Passagem Noroeste, pela costa norte-americana.

Pesquisadores e ambientalistas advertem que o tráfego intenso por esses ambientes frágeis pode acarretar desastres ecológicos e humanos.

A Rota do Mar do Norte reduz pela metade o tempo de viagem entre Ásia e Europa, comparado ao Canal de Suez.

Apesar de usada pela União Soviética para acessar regiões remotas, desafios fizeram com que fosse pouco explorada para comércio internacional até os anos 2010.

Desde então, o uso da rota aumentou para cerca de 100 viagens anuais, e a Rússia intensificou seu aproveitamento para exportar petróleo e gás à China após sanções limitarem o mercado europeu.

A Passagem Noroeste também teve um crescimento no número de travessias, chegando a 41 em 2023.

Existe a possibilidade futura de uma terceira rota pelo Polo Norte, mas o grau de degelo necessário traria efeitos ambientais graves, acelerando o aquecimento global, eventos climáticos extremos e danos aos ecossistemas.

Quanto à mineração, o derretimento do gelo pode tornar exploráveis terras antes inacessíveis. A Groenlândia, por exemplo, possui reservas de carvão, cobre, ouro, terras raras e zinco, conforme o Serviço Geológico da Dinamarca e Groenlândia.

Contudo, pesquisadores destacam que esses recursos são difíceis e caros de extrair devido à localização remota, onde o gelo polar tem mais de um quilômetro de espessura e longos períodos de escuridão predominam.

Malte Humpert, fundador do Instituto do Ártico, classificou à CNN como “completamente absurda” a ideia de que esses minerais poderiam ser facilmente aproveitados para benefício dos EUA.

Embora Trump tenha enfatizado a segurança da Groenlândia, seu ex-conselheiro de segurança nacional, Mike Waltz, declarou à Fox News em 2024 que o interesse da administração americana envolve também “minerais críticos” e “recursos naturais”.

Créditos: CNN Brasil

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