Queda no consumo de destilados afeta comerciantes após casos de intoxicação por metanol em SP
Comerciantes da região central de São Paulo já começam a sentir os efeitos da redução no consumo de destilados na primeira sexta-feira após a confirmação de casos de suspeita de intoxicação por metanol em bebidas adulteradas.
Na região da Santa Cecília, clientes evitam o gim em bares e barracas ambulantes. Relatos de estabelecimentos indicam que a procura por bebidas destiladas diminuiu desde a divulgação dos casos que ocorreram na zona sul da capital paulista.
Consumidores passaram a preferir bebidas fechadas, como latas e long necks. Dois bares visitados pela reportagem registraram consumo majoritário de cervejas, vinhos e bebidas enlatadas. O comerciante Marcos Mendes comentou que o medo do metanol tem levado o público a trocar destilados por opções consideradas mais seguras, mesmo em dias de maior movimento, como quando ocorre pagamento.
Ainda que o impacto nas vendas seja avaliado com mais clareza apenas após o final de semana, a frequência nos bares e praças permanece alta. Um vendedor ambulante de caipirinha afirmou estar preocupado com possível prejuízo, mas ainda sem dados concretos sobre uma eventual queda no consumo.
Alguns consumidores declararam que por ora optam por vinho e cerveja, além de evitarem bebidas manipuladas, como copões preparados com vodka, cachaça, energético e gelo saborizado.
Clientes frequentes de um bar no Largo Santa Cecília relataram confiança nas bebidas fornecidas ali, preferindo consumir apenas produtos lacrados e de procedência conhecida.
A Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) informou que ainda não percebeu uma queda significativa no faturamento, exceto em locais que foram fechados. A entidade espera obter dados mais precisos na próxima semana.
No Brasil, houve uma morte confirmada por intoxicação por metanol em São Paulo, e o total de casos suspeitos subiu para 102, com 11 confirmados, segundo boletim do Ministério da Saúde.
Seis estados investigam os casos suspeitos: São Paulo (101), Distrito Federal (2), Pernambuco (6), Bahia (2), Paraná (1) e Mato Grosso do Sul (1).
O Ministério da Saúde adquiriu 150 mil ampolas de etanol farmacêutico, antídoto contra intoxicação por metanol, que devem ser distribuídas em breve aos centros de referência estaduais, conforme informou o ministro Alexandre Padilha.
Especialistas alertam consumidores a desconfiar de preços muito baixos e embalagens suspeitas. Entre os sinais de adulteração estão lacres e tampas tortas ou diferentes, rótulos desalinhados ou desgastados, erros de grafia, diferenças nos logos, ausência de informações como CNPJ, endereço do fabricante, número do lote ou outras imperfeições.
Não há forma caseira confiável para identificar metanol na bebida, pois essa substância é muito parecida com o etanol e não altera o sabor nem o cheiro, tornando a intoxicação difícil de detectar sem exames clínicos.
Segundo Álvaro Pulchinelli Junior, médico toxicologista, a presença de metanol passa despercebida durante o consumo, o que torna o envenenamento um perigo silencioso.
O metanol está associado principalmente à adulteração de destilados ilegais ou falsificados, pois processos de destilação inadequados podem concentrar níveis tóxicos sem alterar cor ou sabor. O risco em bebida fermentadas, como cerveja, é praticamente inexistente, salvo raras exceções de produção clandestina com aditivos irregulares.
O metanol é altamente tóxico; 10 ml podem causar cegueira e 30 ml podem ser fatais, conforme dados do CDC dos EUA e órgãos internacionais.
Os sintomas da intoxicação iniciam entre seis e 12 horas após a ingestão, podendo começar com dor abdominal, seguida de confusão, sonolência, dificuldades respiratórias e dor de cabeça, além de hemorragias cranianas em alguns casos.
A toxicidade se deve à conversão do metanol em ácido fórmico, que provoca acidose e prejudica as células. A gravidade dos efeitos varia conforme peso e metabolismo da pessoa.
Qualquer quantidade pode resultar em sintomas graves, sem dose segura estabelecida.
A intoxicação difere da ressaca, que normalmente causa dor de cabeça e náusea, já que o envenenamento apresenta dor abdominal intensa e visão turva.
Em caso de suspeita, é fundamental buscar atendimento médico urgente e comunicar às autoridades competentes, como o Disque-Intoxicação da Anvisa, vigilância sanitária local, polícia civil e órgãos de defesa do consumidor.
Créditos: UOL