Repressão violenta provoca centenas de mortos nos protestos no Irã
Relatos coletados pelo serviço persa da BBC revelam que entre os dias 8 e 10 de janeiro ocorreram atos de repressão violenta e uso de força letal contra manifestantes e cidadãos no Irã. O acesso à internet e às comunicações telefônicas foram amplamente interrompidos, dificultando a verificação independente dos eventos.
Testemunhas em Fardis, próxima a Teerã, relataram que, no dia 9 de janeiro, unidades da Guarda Revolucionária atacaram manifestantes com armas de guerra. Essas forças dispararam indiscriminadamente contra pessoas nas ruas, incluindo motoristas e pedestres, concentrando-se em pontos estratégicos da cidade.
Vídeos circulando nas redes sociais mostraram corpos feridos a tiros, alguns com ferimentos aparentes decorrentes dos protestos iniciados em 8 de janeiro. Estimativas locais mencionam que centenas de mortos foram deixados nos becos até a manhã seguinte.
Em Teerã e Karaj, as forças de segurança foram relatadas disparando contra manifestantes a partir de pontes e apartamentos, deixando cápsulas de balas nas ruas mesmo após tentativas de recolhimento. Fontes indicam mortes que variam de alguns milhares a dezenas de milhares.
A Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos (HRANA), com sede nos EUA, afirmou ter confirmado a morte de 2.571 pessoas, incluindo manifestantes, pessoas ligadas ao governo, menores de idade e civis não envolvidos nos protestos. Até o momento, não foram divulgados números oficiais.
Fontes também informaram que entre 180 e 200 corpos foram levados para necrotérios em cidades como Mashhad e Kermanshah, muitos com ferimentos graves na cabeça, e que alguns cadáveres estariam empilhados, sem entrega às famílias.
Vídeos divulgados no Telegram mostram familiares em luto tentando identificar mortos em institutos forenses, com imagens de corpos em sacos pretos e caminhões descarregando cadáveres.
Hospitais em Rasht e na região leste de Teerã receberam dezenas de mortos decorrentes dos confrontos dos dias 8 e 9 de janeiro. Veículos de comunicação locais também relataram mortes de cerca de 100 membros das forças de segurança e incêndios em mesquitas, bancos, veículos policiais e prédios governamentais.
Há relatos do uso intenso de drones para localizar manifestantes e disparos com fuzis Kalashnikov, sendo os tiros descritos como diretos e letais. Testemunhas qualificaram a situação como um campo de batalha com grande desequilíbrio entre os lados.
Durante os eventos, o serviço de internet foi severamente comprometido ou interrompido; muitos usaram a internet via satélites Starlink, embora temessem ser rastreados. A comunicação móvel funcionava por períodos limitados, e mensagens ameaçadoras do governo alertavam contra a participação nos protestos.
Após a chamada “sexta-feira sangrenta” (9/1), houve uma diminuição considerável da presença nas ruas, acompanhada por um medo generalizado, ainda que cantos contra o regime persistam dentro de residências e telhados.
Os protestos tiveram início motivados pelo colapso da moeda iraniana e pelo aumento no custo de vida, espalhando-se por 180 cidades em 31 províncias. Rapidamente, as reivindicações passaram a incluir demandas por mudanças políticas, configurando o maior desafio ao regime desde a Revolução Islâmica de 1979.
Créditos: BBC