STF condena Bolsonaro a 27 anos e destaca desafios da democracia
O Supremo Tribunal Federal divulgou o acórdão do julgamento que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão. O documento, com quase duas mil páginas, marca não só o fim de uma etapa jurídica, mas o início de um momento simbólico: o país se reconhecendo como realmente é.
Por muito tempo, houve hesitação em nomear claramente os fatos: tentativa de golpe, conspiração e subversão da ordem. Com as palavras agora no papel, o país enfrenta o desconforto de reconhecê-las. O acórdão do Supremo funciona como um espelho que reflete uma nação que entende que democracia vai além do voto, incluindo as consequências que dela derivam, que podem assustar.
Enquanto Bolsonaro recorre da decisão, o presidente Lula mantém cautela, adiando o anúncio de seu indicado ao Supremo. Sua recente viagem à Ásia foi usada como motivo para ganhar tempo e fortalecer acordos políticos. Em Brasília, as indicações para o Supremo são decididas mais por estratégias políticas que por critérios técnicos.
No Brasil, as vagas no Supremo são além de assentos, ferramentas de sobrevivência política. O que deveria ser uma decisão de Estado se transforma numa partida de xadrez.
Paralelamente, o ministro Luiz Fux deixou a 1ª Turma após ficar isolado por ter votado pela absolvição de Bolsonaro. Sua saída tem caráter administrativo e também reflete a dificuldade de suportar a tensão nas relações internas do tribunal. A Corte, concebida para acolher divergências, demonstra cada vez menos disposição para conviver com elas. Talvez o verdadeiro teste da democracia seja não só a coragem de condenar, mas a disposição de continuar dialogando após o voto.
Ainda nesta semana, enquanto o Supremo firma um marco histórico, a Justiça comum repete um antigo vexame. No Rio de Janeiro, todos os réus pelo incêndio no Ninho do Urubu foram absolvidos. O incêndio causou a morte de dez meninos e deixou três feridos, e ninguém será responsabilizado.
O juiz considerou não existir nexo causal comprovado nem culpa individual demonstrada, ou seja, pela lógica de que se todos são culpados, ninguém é culpado. Trata-se de uma decisão técnica, mas de grande impacto moral.
O documentário “O Ninho: futebol e tragédia” retrata o que os autos não mostram: os rostos das vítimas, as mães, os dormitórios improvisados em metal e a fiação precária. Revela que o maior problema não foi elétrico, mas ético.
Enquanto o Supremo julga um ex-presidente, a Justiça de primeira instância absolve um clube rico. De um lado está a balança da justiça, do outro, o abismo.
O Brasil permanece dividido entre um veredito firme e um vazio de responsabilização. Entre uma Constituição que pune os poderosos e decisões que absolvem tragédias. Talvez o que ainda falte à Justiça seja mais reflexão sobre si mesma.
Créditos: GauchaZH