Trump chama Lula de ‘cara legal’ e sinaliza reunião na ONU
Após meses de tensões políticas, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu ao demonstrar um gesto amistoso para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante a Assembleia Geral da ONU.
Trump chamou Lula de “um cara legal” em seu discurso na terça-feira (23/9) e indicou que poderá haver um encontro entre os presidentes na próxima semana, após um breve contato de menos de 40 segundos no evento da ONU.
Na quarta-feira (24/9), Lula declarou otimismo quanto à realização da reunião para superar o mal-estar nas relações entre Brasil e EUA. Ele afirmou ter ficado satisfeito com o encontro e a “boa química” que percebeu entre os dois.
Ao ser questionado sobre possíveis constrangimentos, como o que ocorreu entre Trump e o presidente da Ucrânia, Zelensky, Lula disse esperar que a conversa seja entre “dois seres humanos civilizados”, ressaltando respeito mútuo pela idade e pelos cargos que ocupam.
O professor Dawisson Belém Lopes, da UFMG, comentou que o discurso de Trump desfez o mito de que apenas a direita tem acesso ao governo americano, ressaltando que esse gesto surpreendeu particularmente a ala bolsonarista da oposição brasileira.
Ele reforçou que Lula deve manter uma postura defensiva nas negociações, sem ceder em sua agenda política, especialmente em relação à anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que enfrenta condenações pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Lopes apontou que o Brasil resistiu bem às pressões americanas e que o recuo público de Trump pode indicar uma mudança de estratégia, especialmente por reconhecer que Bolsonaro não é mais interlocutor relevante.
Na pauta das negociações estão assuntos como a regulação das grandes empresas de tecnologia e o acesso dos EUA a minerais estratégicos, incluindo terras raras, nas quais o Brasil é um dos líderes mundiais.
Lula indicou estar aberto à discussão sobre esses temas, destacando a importância do diálogo internacional.
O professor alertou, porém, que essa negociação não deve ser feita a qualquer custo e que o Brasil deve proteger seus interesses nacionais.
Sobre as possíveis armadilhas políticas, Lopes afirmou que Trump é conhecido por improvisar e que o gesto não indica uma tática sofisticada para atrair Lula.
Ele ressaltou que o Brasil e seus diplomatas estarão atentos para evitar exposições constrangedoras, como as já ocorridas com presidentes da África do Sul e da Ucrânia.
Lula também demonstrou abertura e confiança ao dizer que o encontro será entre dois homens maduros, sinalizando uma tentativa de estabelecer paridade e respeito na relação bilateral.
Apesar do discurso mais amigável a Lula, Trump manteve um tom duro em relação à América Latina, associando a região a problemas como narcotráfico e imigração ilegal.
No entanto, o Brasil se destaca por sua dimensão econômica, territorial e populacional, o que justifica uma abordagem diferente nas negociações com os EUA.
Assim, a expectativa é de que a relação bilateral evolua para um diálogo mais construtivo, mas com cautela e foco na defesa dos interesses brasileiros.
Créditos: BBC News Brasil