Trump pressiona aliados para cederem Groenlândia em estratégia de expansão territorial
Quando Harry Truman criou a Otan no início da Guerra Fria, dificilmente imaginaria que os Estados Unidos, seu maior integrante, se tornariam um país a usar guerra econômica e ameaças de força militar contra seus próprios aliados para tentar conquistar territórios.
Essa é a atual situação provocada pelo presidente Donald Trump, que impõe tarifas a parceiros de tratados e ameaça a Dinamarca e seus aliados europeus para forçar a venda da Groenlândia, cuja população não deseja ser parte dos Estados Unidos.
No século XX, os EUA nunca avançaram para tomar terras de outros países contra a vontade dos cidadãos, sendo um país que enfrentou as agressões de regimes totalitários e invasores. Agora, Trump parece querer inserir os EUA entre os conquistadores.
Pressionar um aliado tão antigo a abrir mão de território contra sua vontade foi impensável até recentemente. Alguns membros do governo Trump inclusive consideraram essa ideia uma ilusão.
Debater a conquista da Groenlândia como uma possibilidade séria, e não como uma violação dos tratados internacionais, mostra a mudança na definição do que é aceitável.
Embora os EUA tenham histórico de intervenções, nunca tentaram tomar territórios de aliados pacíficos. Desde a Guerra Hispano-Americana, não mantêm territórios conquistados por força.
Charles Kupchan, professor em Georgetown e ex-conselheiro de Obama, afirma que se os EUA usarem coerção para assumir controle da Groenlândia seria um ato imperial e agressivo contra um aliado democrático.
Assessores de Trump negam a intenção de conquistar a Groenlândia, destacando que o país representa liberdade, força econômica e proteção.
Porém, Trump tem uma mensagem de pressão: “Vamos fazer algo na Groenlândia, gostem ou não” e ameaçou punir países europeus que apoiam a Dinamarca, aumentando tarifas sobre suas importações.
Ele rejeita o diálogo, como mostrou a recusa em conversar com o primeiro-ministro da Noruega, alegando ter sido desconsiderado para o Prêmio Nobel da Paz.
Trump justifica o interesse na Groenlândia por questões de segurança, temendo que Rússia ou China tomem o território, embora nenhum desses países tenha demonstrado intenção de fazê-lo. Atualmente, a maior ameaça vem dos próprios EUA.
Se segurança fosse prioridade, os EUA poderiam já estar com tropas na Groenlândia, como previsto em acordo de 1951, e não o estão.
O interesse aparente de Trump é mais ligado à grandiosidade pessoal. Em entrevista, ele comparou sua visão da Groenlândia à de um incorporador imobiliário, querendo anexar o território e destacou a importância psicológica da aquisição, para ele mesmo.
O bilionário Ronald Lauder, amigo de Trump, incentivou essa ideia, levantando dúvidas sobre quem lucraria com a medida.
Trump tentou comprar a Groenlândia no primeiro mandato, mas o plano fracassou, com a Dinamarca rejeitando a oferta. Mesmo assim, Trump insistiu, chegando a sugerir usar recursos de Porto Rico para a compra, e chegou a propor trocar Porto Rico pela Groenlândia, menosprezando o território e seu povo.
Após reconquistar a presidência, Trump reafirmou que a aquisição é “uma necessidade absoluta” e mantém aberta a possibilidade de usar força militar.
Líderes dinamarqueses reiteram que a Groenlândia não está à venda e evitaram provocar Trump, pedindo que aliados europeus não se envolvessem. Após a retomada firme da questão por Trump, aliados europeus foram acionados para se posicionar e realizar exercícios militares no território.
Os EUA passaram a ser vistos como o agressor provável da Groenlândia, superando até a Rússia nesse papel. A reação popular na Dinamarca, Groenlândia e até na Europa tem sido de protesto contra as intenções americanas.
Trump também demonstrou interesse em outras regiões, como a Venezuela, Canadá e Canal do Panamá, com ameaças e ações que desafiam a soberania desses países.
Isso contrasta com seu discurso de 2017 na ONU, em que falou diversas vezes sobre soberania e respeito às fronteiras e leis internacionais.
Agora, Trump parece querer retornar ao expansionismo do século XIX, quando os EUA construíram um império avançando pelo território norte-americano e travando guerras para aumentar seu domínio.
No século XX, os EUA se posicionaram como defensores contra agressões estrangeiras, combatendo invasões e apoiando países ameaçados, além de criar as Nações Unidas para proteger a soberania estatal.
No entanto, Trump rejeita tratados internacionais, como indicou seu vice-chefe de gabinete, que questionou o direito da Dinamarca sobre a Groenlândia, e o próprio presidente que afirmou que seus limites são sua moralidade e mente.
Até mesmo republicanos criticaram essas ações, chamando-as de estúpidas e desconectadas da política tradicional.
Trump não é o primeiro presidente interessado na Groenlândia; Truman já tentou comprá-la em 1946, mas aceitou o não sem ameaças.
Atualmente, a pressão de Trump sobre a Groenlândia levanta preocupações sobre o respeito à soberania dos aliados e a possível mudança da postura americana no cenário internacional.
Créditos: Estadão