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Fuzis ‘fantasmas’ representam mais da metade das armas apreendidas em operação no Rio

Na operação mais letal já realizada no Rio de Janeiro, realizada nos complexos do Alemão e da Penha, foram apreendidos 93 fuzis, dos quais ao menos metade são armas conhecidas como “fantasmas”. Esses fuzis são imitações clandestinas de modelos originais da Heckler & Koch (HK) e Colt, feitas com peças diversas, muitas vezes produzidas por impressoras 3D capazes de processar metal. Diferentemente das armas originais, cujas marcas são gravadas no corpo, as falsificações possuem inscrições feitas a tinta ou de forma incorreta.

Este tipo de armamento, que é destituído de qualquer registro formal ou número de série e, por isso, é praticamente imune a rastreamento, se popularizou no mercado criminoso do Rio em menos de dez anos. Dados exclusivos do Instituto Sou da Paz, obtidos pelo GLOBO, mostram que as apreensões de fuzis “fantasmas” triplicaram no estado em quatro anos: de 108 em 2020 para 307 em 2023, representando metade dos 610 fuzis apreendidos hoje.

Estimativas da inteligência policial indicam que cerca de um terço dos mil fuzis ainda circulando no Alemão e na Penha sejam deste tipo. Além das peças produzidas a partir de componentes de diversos países, como Venezuela, Argentina, Peru, Bélgica, Rússia, Alemanha e Brasil, também foram encontrados armamentos desviados das Forças Armadas.

A Polícia Civil do Rio atualizou o número de armas retiradas do tráfico nesses complexos, passando de 118 para 120 fuzis, o que representa um prejuízo estimado de R$ 12,8 milhões para o crime organizado, conforme levantamento da Coordenadoria de Fiscalização de Armas e Explosivos (CFAE).

A primeira apreensão expressiva desse armamento ocorreu em janeiro de 2018, quando o sargento do Exército Renato Borges Maciel foi preso ao transportar 18 fuzis “fantasmas” da Tríplice Fronteira ao Rio, entrando pelo Paraná. Inicialmente, as polícias Civil e Federal identificaram que as primeiras armas eram montadas por armeiros no Paraguai.

Em outubro de 2023, a Polícia Federal descobriu uma evolução no mercado dessas armas com a identificação de uma fábrica clandestina em Belo Horizonte, camuflada como marcenaria e equipada com tecnologia avançada, como uma impressora 3D CNC para peças metálicas. O dono, Silas Diniz Carvalho, preso na ocasião, fornecia o Comando Vermelho (CV) e outras organizações criminosas do Rio. Em prisão domiciliar, ele continuou o esquema, transferindo a produção para outra fábrica ainda maior em Santa Bárbara d’Oeste (SP), com capacidade anual acima de 3,5 mil fuzis.

O investimento nas fábricas é alto, mas compensador devido à ausência de necessidade de aquisição de peças originais em dólar e o fato de evitarem custos e riscos associados à corrupção para transporte das armas, segundo Bruno Langeani, especialista em controle de armamentos.

Além dessas unidades industriais, pequenas oficinas artesanais também proliferam, como a descoberta em Rio das Pedras, zona sudoeste do Rio, onde milicianos montam armas com peças importadas dos Estados Unidos e componentes produzidos em impressoras 3D.

Investigações da Polícia Civil e Federal apontam conexões entre essas fábricas e o crime organizado do Rio. Durante vigilância na mansão de Carvalho, um ex-sargento da Polícia Militar, Ricardo Rangel da Silva, associado ao tráfico e apontado como grande fornecedor de armas, foi identificado em ação que envolveu uso de carro clonado. Rangel, expulso da PM após prisão por tráfico de cocaína, ampliou seus clientes vendendo armas a milícias e quadrilhas ligadas ao contrabando.

Conversas interceptadas em 2023 revelam que Rangel trafegava armas vindas do Paraguai, vendendo fuzis para grupos diversos, inclusive a milícia de Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho.

Além da falsificação das marcas, os fuzis “fantasmas” podem ser reconhecidos por erros gráficos nas inscrições, como exemplares apreendidos na Região Serrana do Rio em janeiro de 2025, com erros ortográficos nas inscrições imitando marcas internacionais.

O delegado Vinícius Domingos, da CFAE, destaca que essas armas possuem poder letal equivalente aos fuzis originais, ainda que possivelmente tenham menor durabilidade devido à qualidade inferior.

Créditos: O Globo

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