Cientistas criticam rascunho da COP30 sobre fim dos combustíveis fósseis
Pesquisadores do pavilhão de Ciência Planetária na COP30 publicaram um documento que apresenta duras críticas ao rascunho do texto sobre o mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis. Para esses especialistas, a linguagem utilizada no documento é vista como uma provocação.
Segundo a carta entregue ao presidente Lula (PT) em 19 de novembro, “Os delegados parecem não entender o que é um roteiro. Um roteiro não é um workshop ou uma reunião ministerial. Um roteiro é um plano de trabalho real, que precisa nos mostrar o caminho, de onde estamos, para onde precisamos chegar — e como chegar lá”.
O rascunho do texto de negociação, divulgado no dia 18, traz diferentes alternativas para o mapa do caminho. Uma delas menciona soluções de baixo carbono, com pouca ou nenhuma dependência dos combustíveis fósseis. Outra opção é a ausência de texto, o que indica a resistência de alguns países ao tema. A terceira sugere a criação de uma mesa ministerial de alto nível para ajudar países a desenvolver mapas do caminho justos e equitativos, citando ideais como superar progressivamente a dependência dos combustíveis fósseis e eliminar o desmatamento, sem detalhar exemplos práticos.
Carlos Nobre, cientista e líder do Painel Científico da Amazônia, afirmou que a COP30 deve escolher entre proteger as pessoas e a vida ou proteger a indústria dos combustíveis fósseis.
A matemática Thelma Krug, presidente do conselho científico da COP30, alertou que as florestas estão começando a emitir carbono em vez de absorvê-lo, destacando que a queima de combustíveis fósseis é a principal causa das mudanças climáticas e que, sem a eliminação gradual dos fósseis, as florestas podem não sobreviver.
O cientista sueco Johan Rockström, do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impacto Climático, defendeu que o planeta deve se aproximar do zero absoluto em emissões de combustíveis fósseis até 2040, o que requer o fim de novos investimentos, a retirada de subsídios e um plano global para a introdução justa de fontes de energia renováveis e de baixo carbono.
A ideia de criar esse planejamento partiu da ministra Marina Silva (Meio Ambiente) e foi apoiada pelo presidente Lula. Contudo, a proposta enfrenta resistência, principalmente de países dependentes do petróleo.
Representantes da sociedade civil alertam que o mapa do caminho corre risco de não ser implementado sem financiamento adequado para as nações mais pobres. Mohamed Adow, diretor da ONG PowerShift Africa, ressaltou que a transição energética requer recursos financeiros, e os países em desenvolvimento não podem realizar essa transição sem apoio.
Organizações sociais consideram que o mapa do caminho seria um avanço na comparação com a COP28, mas destacam a insatisfação com a meta de financiamento climático de US$ 300 bilhões anuais estabelecida na COP29, o que ameaça o progresso.
Caroline Brouillette, diretora da Climate Action Network no Canadá, afirmou que a transição prevista não está avançando tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento, por motivos variados, e que a COP30 precisa aprofundar essa discussão.
Mohamed Adow também criticou o foco da COP30 nos indicadores globais de adaptação à mudança climática, observando a ausência de discussão sobre financiamento para adaptação, o que comprometeria os resultados práticos dessas medidas.
Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) divulgado antes da COP30 indicou que os repasses financeiros para adaptação têm diminuído e estão distantes da promessa de cerca de US$ 40 bilhões até 2025.
Adow defende que os países vulneráveis exigem o triplo desse valor para adaptação, junto a um compromisso de US$ 120 bilhões em doações públicas por parte das nações desenvolvidas. Essa quantia consta no rascunho do texto em negociação, mas pode ser alterada até o encerramento da conferência.
Países vulneráveis, liderados pelo grupo africano, se posicionam firmemente contra indicadores de adaptação que não incluam financiamento, evidenciando a prioridade de recursos para adaptar-se às mudanças climáticas.
Créditos: Folha de S.Paulo