Eleições legislativas na Argentina ganham importância geopolítica e econômica
Por que uma eleição legislativa na América do Sul é relevante ponto de atrair a interferência do governo dos EUA? A resposta está na Argentina. As votações deste domingo (26/10), que irão renovar parte do Congresso argentino, assumiram uma importância rara em termos políticos, econômicos e geopolíticos.
As urnas podem decidir muito além da ocupação de metade das cadeiras da Câmara dos Deputados e um terço do Senado em disputa. Para o presidente argentino Javier Milei, um economista libertário e aliado do ex-presidente dos EUA Donald Trump, essa eleição representa o teste mais delicado de seus quase dois anos de governo.
Por outro lado, o pleito pode ser decisivo para a oposição local e para a nova aliança entre Buenos Aires e Washington, conforme ressaltou Trump.
Inicialmente, a eleição parecia ser uma chance para Milei consolidar seu projeto político e aumentar sua base no Congresso, onde não detém maioria, fator fundamental para aprovar mudanças legislativas e vetos presidenciais.
Seu rigoroso plano de ajustamento apresentou resultados, mas gerou grandes sacrifícios para a população. Segundo o analista político Sergio Berensztein, trata-se de uma disputa pela continuidade da estabilização econômica ou o retorno da inflação elevada.
No meio do ajuste, diversos escândalos afetaram Milei, que chegou ao poder prometendo combater a corrupção da chamada “casta” política. Em investigação pela Justiça dos EUA, ele lançou em fevereiro uma criptomoeda que perdeu rapidamente seu valor.
A irmã do presidente, Karina Milei, secretária-geral da Presidência e figura influente no governo, foi citada em áudios que sugerem envolvimento em suposto esquema de propina na Agência Nacional para a Deficiência (Andis).
Além disso, José Luis Espert, indicado por Milei para deputado em Buenos Aires, renunciou após virem à tona suas ligações com um empresário acusado de narcotráfico nos EUA. Todos negam irregularidades, mas o impacto político desses fatos será avaliado nas urnas.
Em recente derrota eleitoral, o partido de Milei, La Libertad Avanza, perdeu para o peronismo em Buenos Aires, a província mais populosa, gerando apreensão nos mercados e instabilidade cambial.
Um ponto crucial será se Milei conseguirá apoio de um terço da Câmara, necessário para manter vetos às leis. Sem essa maioria, teria que negociar com aliados e possivelmente moderar sua postura agressiva, conforme aponta Berensztein.
Sua capacidade de acordos com o PRO, partido do ex-presidente Mauricio Macri, e outros grupos será decisiva para reformas trabalhista, tributária e previdenciária previstas. Sem apoio, há risco de reação negativa dos mercados e comprometimento do mandato.
Do lado oposto, a oposição quer fortalecer sua influência no Congresso. Milei tem sofrido derrotas recentes pela união de blocos variados após vetar leis contrárias ao seu ajuste e enfrentar o Congresso e governadores.
Porém, a oposição não é homogênea. No peronismo, diferentes líderes disputam espaço, como a ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner (em prisão domiciliar por corrupção), o governador Axel Kicillof e o ex-ministro Sergio Massa.
No centro político, surgiu o grupo Províncias Unidas, com governadores de partidos diversos, que pode oferecer uma alternativa eleitoral menos polarizada.
As eleições, portanto, podem ser o ponto inicial para a reorganização da oposição visando a disputa presidencial de 2027.
O ex-presidente dos EUA Donald Trump ordenou auxílio financeiro sem precedentes para a Argentina, buscando aliviar crises políticas e econômicas de Milei, com quem mantém alinhamento ideológico.
O apoio americano inclui uma linha swap de US$ 20 bilhões para intercâmbio de moedas e cerca de US$ 1 bilhão para comprar pesos e evitar maior desvalorização. Trump também sugeriu importar carne argentina. O secretário do Tesouro dos EUA anunciou intenção de criar um fundo adicional de US$ 20 bilhões com bancos privados, ainda não implementado.
Scott Bessent declarou que ter uma Argentina estável é importante estrategicamente para os EUA. A pesquisadora Monica de Bolle, do Instituto Peterson, ressalta que essas ações tentam frear a influência chinesa na região.
Segundo De Bolle, a Argentina tem ativos estratégicos valiosos, como gás natural, lítio e terras raras, e o auxílio permite aos EUA negociar agressivamente seus interesses.
Trump advertiu que o suporte depende do desempenho eleitoral de Milei, afirmando: “Se ele não ganhar, vamos embora.” Em recente encontro na Casa Branca, defendeu que a Argentina está “lutando por sua vida.”
A pressão sobre o dólar na Argentina persiste, e o Tesouro aumentou a compra de pesos para conter a cotação.
Ainda é incerto como essas dinâmicas afetarão o voto do eleitorado argentino, que mesmo assim observa movimentos opositores democratas e nacionais críticos ao uso de recursos norte-americanos nesse apoio.
De Bolle destaca que a ajuda não resolve o problema estrutural da dependência argentina do dólar e do sistema monetário vulnerável.
O risco para os EUA, alerta, é ter que decidir entre deixar o país ou continuar enviando dinheiro sem garantias de retorno.
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Créditos: BBC