Governos do Brasil e EUA buscam diálogo pragmático após breve encontro na ONU
Em meio à repercussão da rápida interação entre Lula e Trump durante a Assembleia Geral da ONU, o governo brasileiro enfrenta o desafio de converter essa “química” em avanços concretos para o país. A possível conversa futura entre os líderes, após meses de tensões comerciais e diplomáticas, demanda preparação profissional e pragmática de Itamaraty e Planalto, com o foco em eliminar tarifas injustas e evitar distrações políticas.
Na era do imediatismo, até o encontro da ONU se torna um espetáculo rápido. Apesar do contraste entre os discursos de Lula e Trump na abertura do evento, a atenção logo se voltou para a declaração final do presidente americano sobre a breve conversa com Lula e a existência de uma forte “química” entre eles.
A intensidade dada a esse curto episódio revela como a política é cada vez mais influenciada pelo ritmo acelerado e superficial das redes sociais. Narrativas diversas circulam, como a ideia de que Lula teria superado Trump ou que Trump teria abandonado Jair Bolsonaro, o que demonstra a distorção em torno do episódio.
A possibilidade de diálogo entre os Estados Unidos e o Brasil, mesmo que por telefone ou online, após o agravamento nas relações comerciais e diplomáticas, é uma notícia relevante. Para que essa conversa seja proveitosa para o Brasil, é essencial que haja uma preparação meticulosa e realista, afastando opiniões imprecisas, torcidas e interpretações equivocadas.
Lula apresentou um discurso estruturado e corajoso na abertura da Assembleia Geral, com estratégias claras para comunicar-se tanto com o público externo, defendendo o multilateralismo e alianças globais, quanto com o interno, ao reforçar a soberania nacional e a independência do Judiciário.
Foi delicada e estratégica sua decisão de não mencionar diretamente Trump ou os Estados Unidos, apesar da clara referência indireta. Excetuando-se a persistente defesa que Lula faz de Cuba e Venezuela, suas críticas a autocratas e ameaças à democracia foram precisas e consistentes.
Já o discurso de Trump foi extenso e, em vários momentos, marcado por ironias inadequadas, desrespeito à ONU e outros países, além de distorções de dados. Para os brasileiros, o destaque foi a declaração final, que veio ao fim do discurso.
Com a iminente reunião entre os dois presidentes, o governo brasileiro deve focar em transformar a suposta “química” em avanços reais nas áreas comercial e política. A sensação é que Washington decidiu retomar as negociações ao perceber o impacto negativo para a economia americana das tarifas elevadas sobre produtos brasileiros.
Além disso, o silêncio de Trump sobre Jair Bolsonaro em seu discurso coloca em perspectiva a real atenção dada pelo governo americano ao ex-presidente brasileiro. Eduardo Bolsonaro, que tem se distanciado, reconhece a deterioração de sua situação conforme suas ações geram problemas.
Diante disso, Itamaraty, Planalto e a equipe econômica devem organizar uma pauta objetiva e reduzida, com foco na revogação de tarifas e sanções aplicadas de maneira injusta e sem base técnica.
Evitar bravatas nacionalistas e tentativas de convencer Trump sobre teorias conspiratórias envolvendo Bolsonaro é essencial. Quanto mais a figura do ex-presidente estiver fora da negociação e adultos experientes conduzirem a conversa, maiores as chances de sucesso para o Brasil. O objetivo é alcançar resultados concretos, não depender de uma “química” impossível entre dois líderes tão distintos.
Créditos: O Globo