Lula manifesta otimismo sobre encontro com Trump e destaca diálogo entre Brasil e EUA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quarta-feira (24/9) que espera que a possível reunião com o presidente dos EUA, Donald Trump, ocorra em breve, “como dois seres humanos civilizados” e sem espaço para brincadeiras.
Na terça-feira (23/9), durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, Trump disse que Lula é “um cara legal” e mencionou que os dois devem se encontrar na próxima semana, sem detalhar o local ou a forma do encontro.
Em resposta a uma pergunta da BBC News Brasil sobre se teme algum constrangimento, Lula declarou otimismo com o encontro. Ele ressaltou que ambos têm 80 anos (Trump fará 80 em junho do próximo ano e Lula já tem 80 desde outubro) e que isso impede brincadeiras na relação entre eles. “Eu vou tratá-lo com o respeito que merece o presidente dos Estados Unidos, e ele certamente vai me tratar com o respeito que merece o presidente da República Federativa do Brasil”, afirmou.
Lula enfatizou o valor do diálogo e disse que espera que a reunião ocorra em breve.
O presidente brasileiro comentou que o encontro pode ser público ou presencial, mas não especificou data nem se retornará aos EUA. Ele mencionou ter encontrado Trump por alguns segundos na ONU em Nova York e que há bastante coisa a conversar entre eles.
Ele afirmou não haver veto sobre os temas que poderão ser debatidos e destacou que o julgamento de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe não está em pauta.
Entre os temas possíveis de negociação, Lula citou os minerais de terras raras, ressaltando o interesse do Brasil em discutir isso com o mundo e que empresas que explorarem esses minerais devem desenvolver a indústria no país, não apenas exportar os minérios.
Com bom humor, ele afirmou estar estudando para não ser enganado.
Lula repetiu a frase dita por Trump sobre a “química excelente” entre eles e disse ter ficado feliz com isso, acrescentando que acredita que realmente há química e que isso é 80% da relação humana, com 20% de emoção. Ele ressaltou a importância dessa relação entre Brasil e EUA, as maiores democracias do continente, e os interesses comerciais, industriais, tecnológicos e científicos compartilhados.
Para Lula, não há motivo para conflito entre as duas maiores economias e países do continente. Ele acredita que a reunião pode resolver o mal-estar atual e levar Trump a reconsiderar medidas tomadas contra o Brasil, por considerar que ele está mal informado sobre o país.
Antes da coletiva, Lula encontrou o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, após negociações entre os governos. Zelensky comentou ter gostado dos “sinais vindos do Brasil” e afirmou que Lula se comprometeu a fazer o possível para levar paz à Ucrânia.
Lula destacou a importância da conversa, lembrando que a guerra começou com a expectativa de vitória rápida de um dos lados e que já se sabe o limite para negociações. Ele mencionou a proposta de criação de um “grupo de amigos”, países interessados em construir a paz, que poderiam visitar Ucrânia e Rússia com o apoio da ONU.
O presidente brasileiro afirmou que Zelensky demonstrou vontade maior de diálogo do que em outros encontros. Lula também declarou que tentará conversar com quem for possível, incluindo Trump, e destacou que, assim como ele e Trump são amigos de Putin, a amizade entre eles pode ajudar a trabalhar por uma solução para o conflito.
No discurso de terça-feira, Lula afirmou que o multilateralismo está em uma nova encruzilhada e que a autoridade das Nações Unidas está ameaçada. Defendeu maior participação dos países do Sul Global nos temas internacionais, como a guerra na Ucrânia, destacando iniciativas como a Africana e o Grupo de Amigos da Paz, criado por China e Brasil.
Sobre conflitos globais, afirmou que o caso da Palestina é o exemplo mais emblemático do uso ilegal e desproporcional da força. Condenou os atentados do Hamas e o genocídio em Gaza.
Falou também sobre mudanças climáticas e a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que será em novembro no Pará, afirmando que o mundo conhecerá a realidade da Amazônia e será uma oportunidade para os líderes mundiais mostrarem compromisso com o planeta.
Lula criticou sanções arbitrárias e intervenções unilaterais, sem citar diretamente o governo Trump. Em julho, Trump anunciou taxação de 50% em produtos brasileiros, justificando pela suposta perseguição judicial de Bolsonaro, o que levou a isenções para cerca de 700 produtos posteriormente.
Também em julho, o governo Trump abriu investigação comercial contra o Brasil sobre assuntos diversos, como Pix e desmatamento.
No discurso, Lula afirmou que a condenação de Bolsonaro pelo STF por golpe é um recado a candidatos a autocratas e seus apoiadores, ressaltando que a democracia e soberania do Brasil são inegociáveis.
Ele alertou contra o fortalecimento do autoritarismo diante da omissão diante da arbitrariedade e afirmou que o país seguirá independente e livre de tutelas.
Na segunda-feira (22/09), o Departamento de Estado dos EUA informou que puniria com a Lei Magnitsky a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, relator da ação contra Bolsonaro, que já havia sido alvo da mesma lei em julho.
A Lei Magnitsky é uma das penalidades mais severas contra estrangeiros considerados pelos EUA autores de graves violações de direitos humanos e corrupção.
Créditos: BBC News Brasil