Internacional
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Amorim: ‘Lula eles não enganam’ e diálogo com Trump mira comércio

“Eles não enganam Lula.” Foi assim que o assessor especial da presidência para Assuntos Internacionais, o embaixador Celso Amorim, respondeu ao ser questionado sobre o risco de que o presidente brasileiro fosse alvo de alguma emboscada por parte da Casa Branca.

Em entrevista exclusiva ao UOL, Amorim falou sobre o encontro entre Lula e Donald Trump na ONU e os pontos prioritários para o Brasil nesse diálogo.

O diplomata destacou que ainda não existe uma definição sobre como o encontro irá ocorrer, mas sinalizou que investimentos e comércio podem ser pontos iniciais do diálogo.

De acordo com Amorim, a ideia é de que seja vinculado a um maior investimento norte-americano no Brasil, desde que haja processamento no país — como é o caso do acesso às terras raras. “Não daremos nada de graça”, garantiu.

Eis os principais trechos da entrevista exclusiva:

O que significou o gesto de Trump?

Amorim: Até agora havia apenas uma relação indireta, por carta, sempre muito tensa. E acho que houve um desejo de distensão. Se vai resolver alguma coisa, os problemas substantivos, temos ainda que ver. Mas há a possibilidade e o desejo de conversa, e isso é positivo.

Qual a mensagem que o governo vai levar à conversa?

Amorim: Somos os dois maiores países das Américas, temos um histórico de boa relação. O que procuramos para o mundo é um certo equilíbrio e que contribua para a paz. Isso é bom para todos. Essa é a nossa mensagem. E, no comércio, claro que não podemos resolver tudo de uma vez. Evidente que favorecemos o comércio multilateral. Mas vamos tentar tratar do imediato, fazer como outros países estão fazendo.

Nós não podíamos fazer, pois eles (norte-americanos) tinham colocado uma questão de natureza judicial e política, não era possível. Agora, talvez consigamos ir já resolvendo algumas questões comerciais.

Quando uma conversa começa, tudo já muda de figura.

A questão comercial então é o ponto de partida?

Amorim: Conversas de presidentes são sempre amplas. Mas o primeiro objetivo talvez seja a área comercial. Mas há aspectos da área judicial que são muito importantes para nós e só o presidente [Lula] vai poder decidir.

A perspectiva de um diálogo significa que o Brasil vai abrir mão do processo aberto contra os EUA na OMC?

Amorim: Eu não vejo razão para retirar o processo. Sempre tivemos amizade com os EUA e eles tinham processos contra nós e nós contra eles. Ganhamos até mesmo um belo processo, que começou no final do governo de Fernando Henrique Cardoso e terminou já no governo Lula.

Agora, se eles disserem que, para resolver um tal ponto, esse processo deve ser retirado, não sei. Tudo é negociável. Por todas as razões, sou muito favorável à OMC. Mas tampouco é uma religião.

Nesse diálogo, o Brasil pode oferecer redução de tarifas?

Amorim: Não tem muito o que reduzir, nem eles pediram especificamente isso. Vamos ver o que eles querem. Acho que será uma negociação mais na área de investimentos, desde que haja processamento no Brasil. Há coisas que interessam a eles. Mas não daremos nada de graça. Não só uma troca por tarifas, mas também com beneficiamento no Brasil.

Muitos reclamam das fábricas chinesas, mas muitas delas entraram onde as norte-americanas saíram.

Terras raras e minérios podem entrar?

Amorim: Esse é um tema extremamente sensível. Tão sensível que o presidente Lula vai criar um conselho para que não seja tratado apenas como uma questão comercial menor. Mas, com um acordo que também nos beneficie, com processamento no Brasil, e desde que não nos prive do que é o essencial para nós, dá para conversar.

Então, não será então o modelo ucraniano de acordo sobre recursos naturais?

Amorim: A Ucrânia está necessitada de ajuda. Não dá para comparar.

Há já data e local para esse encontro?

Amorim: Não que eu saiba.

Será por videoconferência?

Amorim: Pode haver um primeiro passo por telefone para preparar, pode ser num lugar onde os dois estejam presentes, no meio do caminho para outra viagem. É muito cedo ainda. O importante é a disposição de conversar e ela existe. O presidente Lula ficou contente com as palavras ditas por Trump.

O que fazer para evitar uma emboscada, como aconteceu com os presidentes sul-africano e ucraniano no Salão Oval?

Amorim: Lula eles não enganam.

Mas existem alguma medida que possa ser tomada?

Amorim: Talvez pensar qual será o melhor lugar, qual melhor formato, quando falar com a imprensa. Tudo isso é possível combinar.

O que levou a esse gesto de Trump? Houve um papel do setor privado?

Amorim: O setor privado tem vários ramos. Alguns pararam e não conseguiram acesso. Outros continuaram tendo algum diálogo. Quem ainda teve contato disse que era bom que houvesse o encontro. Sentimos que havia algo ocorrendo.

Como ficaram Eduardo Bolsonaro e o bolsonarismo diante dessa nova situação?

Amorim: Isso é um problema deles. Nós aqui cuidamos do Brasil.

Há ainda a possibilidade de que uma ala mais dura do trumpismo mantenha contato com o bolsonarismo?

Amorim: Tenho a impresso de que Trump não teria feito o gesto de abertura se ele estivesse ainda disposto a tomar alguma atitude mais rígida. Já achei que, depois do julgamento de Bolsonaro, sua reação foi mais suave que de alguns outros funcionários.

Preocupa a ação de Trump contra a Venezuela? Esse tema pode entrar na agenda da conversa entre Lula e Trump?

Amorim: Eu acho que é possível que fale. Não é o governo Maduro ou qualquer outro. O uso da força e sua ameaça contra países da América do Sul é algo que nos preocupa muito. Trabalhamos para que a região seja uma área de paz. Queremos que haja paz e respeito. O problema do governo venezuelano é do povo venezuelano. Não podemos nos meter nisso. O que defendemos é a não intervenção e não agressão.

O que essa história, de uma forma geral, mostra sobre a política internacional?

Amorim: A disposição de negociar é fundamental — mas, ao mesmo tempo, é fundamental ter firmeza na defesa dos seus interesses.

Créditos: UOL

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