Economia
12:06

Banco Central investiga operações suspeitas do Banco Master com fundos da Reag

Um relatório do Banco Central (BC) enviado ao Tribunal de Contas da União (TCU) aponta indícios de fraude em operações financeiras entre o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, e fundos administrados pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários.

O documento identifica transações suspeitas que totalizam R$ 11,5 bilhões, consideradas pelo BC com “falhas graves” e em desacordo com normas do Sistema Financeiro Nacional. O caso foi comunicado ao Ministério Público Federal (MPF).

A Reag foi alvo da Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal para investigar lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC) no mercado financeiro. Em nota, a empresa declarou colaborar com as autoridades e negou envolvimento em práticas criminosas.

Conforme o relatório enviado ao TCU, o BC detectou indícios de fraude em operações estruturadas entre o Banco Master e fundos ligados à Reag realizadas no período de julho de 2023 a julho de 2024. Essas operações fazem parte de um conjunto maior do banco que, somado, chega a R$ 11,5 bilhões, envolvendo ao menos dois fundos administrados pela Reag.

O BC apontou problemas como gerenciamento inadequado de capital e risco, além da realização de negócios sem garantias suficientes, liquidez adequada ou diversificação, o que pode acarretar processos administrativos sancionadores.

Técnicos suspeitam que os fundos tenham sido usados para pulverizar recursos em nome de terceiros, conhecidos como “laranjas”. Entre eles estão o Bravo 95 Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado e o D Mais Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, ambos administrados pela Reag.

Esta é a segunda comunicação do BC ao MPF envolvendo o Banco Master. A primeira tratou da revenda de R$ 12,2 bilhões em créditos considerados inexistentes ao Banco de Brasília (BRB).

A Operação Carbono Oculto, lançada em agosto, investiga a ligação entre o crime organizado, o setor de combustíveis e estruturas do mercado financeiro. As investigações apontam um esquema de lavagem de quase US$ 10 bilhões, atribuído a um dos maiores grupos criminosos do país.

Segundo os investigadores, o dinheiro teria sido disfarçado por meio de fundos de investimento com único cotista, chamados fundos exclusivos, considerados potenciais “fundos de fachada”.

Pelo menos 40 fundos teriam sido usados pelo suposto mentor do esquema, Mohamad Hussein Mourad, acusado de lavar recursos provenientes de um império ilegal de combustíveis. Quase doze desses fundos eram administrados ou geridos pela Reag — mais do que qualquer outra instituição envolvida, segundo o MPF.

Promotores afirmam que essa estrutura auxiliou na expansão de um negócio baseado na venda de combustível adulterado.

Além disso, há outras conexões entre a Reag e o Banco Master. A distribuidora administrava o fundo Termópilas, que controlava a empresa Super Empreendimentos, dona de uma casa de R$ 36 milhões em Brasília usada por Daniel Vorcaro para encontros com políticos, conforme investigações.

A Reag, que teve ascensão rápida e chegou a administrar cerca de R$ 369 bilhões em ativos, teve seu crescimento interrompido pela operação policial. O fundador João Carlos Mansur afastou-se da gestão, renunciou à presidência do conselho e vendeu sua participação em outubro.

Para tentar mudar sua imagem, a gestora mudou de endereço e passou a ser chamada Arandu Investimentos, nome em tupi que significa “sabedoria” ou “tempo de escutar”.

A empresa, por meio de advogados, afirma que colabora amplamente com as autoridades e nega qualquer envolvimento com práticas ilegais. A defesa destaca que os fundos sob investigação representam cerca de 0,23% do total dos ativos geridos pela empresa.

Esse caso causou alerta no mercado financeiro sobre possível infiltração do crime organizado no sistema tradicional, reforçando a pressão por regras mais rigorosas de supervisão.

O Banco Central decretou a liquidação do Banco Master em novembro. Paralelamente, o TCU investiga possíveis falhas ou omissões do BC no manejo do caso.

O processo relativo ao Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, tramita sob sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF), com relatoria do ministro Dias Toffoli.

Créditos: Folha de S.Paulo

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